Seringas nos EP's (ii)

Caro Pedro,


Tenho que concordar contigo em quase tudo. Aliás, o que referes, vem praticamente de encontro ao que aqui disse.


É certo, que uma verdadeira intervenção deve ser abrangente e feita em todas as áreas (quer prevenção, tratamento e reinserção), sendo que considero, como já o disse antes (neste artigo publicado em 2004 na revista "Proyecto Hombre"), que a prevenção deverá deixar de ser o parente pobre da intervenção nas toxicodependências em Portugal.


O que fiz neste post anterior, foi contribuir para a avaliação duma política individual que se insere certamente, numa outra bastante mais vasta.


Por isso referi que seria "uma forma de conseguir trabalhar com os mesmos para uma futura intervenção na recuperação desta população toxicodependente…". Também por isso referi que deveria ser uma intervenção que não visasse apenas o tratamento à dependência física das substâncias. Ainda por esse (entre outros) motivo, indiquei exemplos de intervenções que se fazem nos estabelecimentos prisionais (EP's) em Portugal.


Estava, obviamente, a defender (embora não o referisse explicitamente) à existência de equipas que trabalhassem directamente com os reclusos toxicodependentes e que poderia passar (concordo contigo) pela criação de salas de consumo assistido, cuja existência também defendo fora dos estabelecimento prisionais (como o referi, por exemplo, nesta comunicação no congresso "Toxicodependências: Olhares dos Diferentes Técnicos").


Aliás, com essas palavras estava, ainda, a sugerir que a existência (ou o alargamento) dos grupos de auto-ajuda (e outros) que vão existindo em alguns EP's.


Só não concordo contigo quando referes que esta política é reveladora de que o Estado é incapaz de combater o tráfico e reveladora da existência de cúmplices do tráfico nos EP's.


Não concordo simplesmente, porque não necessitamos desta política para verificarmos essa situação. Ela é patente e visível a todos aqueles que conheçam a realidades dos EP's em Portugal. Infelizmente...


Mas, e em relação a esta parte, volto a questionar o seguinte: Já pensaram no que seria um estabelecimento prisional com capacidade para 90/100 reclusos, ter 75% dos mesmos em síndroma de abstinência, sem qualquer tipo de apoio medicamentoso? Ou seja, a ressacar completamente a frio? E mesmo quando esta fase estivesse ultrapassada, o que aconteceria com as ressacas psicológicas dos reclusos?


Ou seja, será que o Estado é mesmo incapaz de controlar o consumo e tráfico de estupefacientes nos EP's? Ou será esta uma forma (infeliz, claro) de controlar esta população?

publicado por MAV às 04:18